Sonhos e surdez - relato de uma experiência
Acací de Alcantara Palermo - Membro Trainee IJSP
Trabalho apresentado no Simpósio IJSP 1998
Gostaria de iniciar esta apresentação delineando o
perfil dos indivíduos surdos aos quais vou me referir no
decorrer desta explanação, bem como situá-los
na realidade brasileira.
Estou trabalhando com adolescentes que frequentam o Programa de
Ensino Fundamental ( 1ª à 4 ª série) para
alunos surdos com grande defasagem em relação à
idade/série escolar da DERDIC IESP PUCSP.
Trata-se de adolescentes não oralizados , ou seja, não
falam. A forma utilizada para a nossa comunicação
é o português com sinais que é a modalidade
adotada pela DERDIC. Não apresentam proficiência nesta
língua visto que a grande maioria foi introduzida à
esta modalidade de comunicação por volta de 3 a 4
anos atrás. São alunos que não tinham escolaridade,
ou tinham experiência de fracasso escolar.
Aqui vale um esclarecimento em relação ao que vem
a ser português com sinais. Esta forma de comunicação
é diferente da língua brasileira de sinais. Normalmente
as pessoas imaginam que a língua de sinais é universal
o que não é verdade. Cada país tem a sua própria
língua de sinais. Deste modo existem a língua americana
de sinais, língua inglêsa de sinais, língua
italiana de sinais e assim por diante. Cada uma destas línguas
possui suas próprias regras que diferem das regras da língua
falada em cada país.
Com o objetivo de desenvolver a capacidade de ler e escrever, algumas
escolas adotaram o português com sinais onde as frases são
construídas exatamente como no português e são
acompanhadas por sinais.
Estes adolescentes pertencem à classe da população
economicamente menos favorecida e conseqüentemente suas famílias
também apresentam um baixo nível cultural.
Trata-se de jovens que cresceram em semi isolamento pois não
falam a língua dos pais e até entrarem para uma escola
especializada e terem contato com outros surdos não tiveram
a possibilidade de desenvolver suas habilidades na língua
de sinais.
No âmbito familiar dificilmente alguém lhes dirige
a palavra, permanecendo alheios a quase todos os acontecimentos,
quer de importância ou não.
Em relação à vida adulta e mercado de trabalho,
as possibilidades são pequenas até mesmo para os surdos
que tiveram um desenvolvimento mais favorável do que os que
cito neste trabalho.
No Brasil a maioria da população surda é semi-alfabetizada,
sendo raros os casos de surdos que chegam até a universidade.
Em outros países tais como Estados Unidos, Inglaterra e
países nórdicos o acesso ao ensino é facilitado.
As crianças desde bem pequenas vão para uma escola
especializada e têm aula com professores surdos. A primeira
língua na qual são introduzidas é a língua
de sinais e aprendem a língua oficial do país como
uma segunda língua. Quando não freqüentam uma
universidade para surdos, como por exemplo a Gallaudet University
nos Estados Unidos, o próprio Estado lhes garante o direito
a um intérprete dentro de uma universidade comum. Enquanto
isso no Brasil nossos surdos ainda batalham pelo direito de utilizarem
a língua de sinais.
O que vou apresentar não é um trabalho concluído,
é muito mais um caminho que venho percorrendo e que gostaria
de compartilhar com outros profissionais.
Meu interesse pelos surdos teve inicio a alguns anos atrás
quando comecei a estabelecer contato com algumas crianças
que eram atendidas por uma fonoaudióloga no mesmo local em
que tenho consultório.
Comecei a pensar na maneira de como lidavam com as emoções
e com o material vindo do inconsciente.
Meu primeiro passo na tentativa de compreender a relação
do surdo com o inconsciente foi pesquisar a existência de
um mito em que houvesse um surdo. Temos Tirésias que é
cego e possui olhos voltados para o inconsciente e para a sabedoria
interior. Temos o centauro Quíron que possui uma ferida incurável
mas domina a arte da cura. Temos ainda Hefaístos que é
coxo. São todos mitos que apresentam alguma deficiência
física, mas em relação ao surdo nada encontrei.
Procurei o professor Junito para saber se ele conhecia algum mito
em que houvesse um surdo, ele também desconhecia.
Temos mitos que abordam as mais diversas situações
arquetípicas. Qual será o significado do não
ouvir, que símbolo pode ser este?
Dentro do nosso trabalho como analistas algumas vezes nos deparamos
com sonhos em que o sonhador não pode ouvir direito, às
vezes a ligação telefônica esta ruim ou a pessoa
que fala está muito distante, o que para nós indica
o quanto a pessoa tem de dificuldade em se aproximar do conteúdo
em questão, o quanto este conteúdo está distante
da consciência.
O não ouvir acarreta em uma grande dificuldade na comunicação,
seja ela com os outros ou com o próprio indivíduo,
impedindo-o de fazer consciência, bloqueando a possibilidade
de individuação.
Pesquisei no psychological abstracts, trabalhos que tratassem de
sonhos de surdos e não encontrei material que abordasse os
dois temas: sonhos e surdez.
Ocorreu-me então a idéia de começar a fazer
um levantamento de sonhos de pessoas surdas. Em 1997 tive a oportunidade
de iniciar um trabalho com um grupo de quatro adolescentes surdos,
composto por três rapazes e uma moça, com idades entre
14 a 19 anos, todos cursando a 3ª série e pertencentes
à mesma classe. A professora da sala participou auxiliando
na comunicação.
Com o intuito de poder haver troca optei por uma metologia de trabalho
que envolvesse mais do que o simples levantamento de dados.
Tivemos encontros semanais com uma hora de duração,
com o objetivo de que eles contassem seus sonhos. O relato era acompanhado
por todos e em seguida faziam comentários a respeito das
emoções que o sonho em questão provocava em
cada um dos participantes . Os sonhos não foram interpretados.
Todos os encontros foram filmados estando assim documentados para
consultas e estudos posteriores.
Encontros
18 /Agosto/97
João - Era jogador de futebol. As fãs mandaram uma
carta imensa.Tinha um carrão. Fui à casa de uma fã.
Fui passear no shopping e dei muitos autógrafos. Era casado
e tinha dois filhos que também jogavam no ataque.
Sueli - Minha tia está doente, estou com saudade, meu pai
trabalha para comprar televisão. João (colega de sala)
está sempre nervoso, falando palavrão no futebol.
A Maria José (professora) vai ajudar na matemática
Hélio - Sonhei com motel. No futuro vou ter uma namorada,
é uma menina de outra escola. (comentando) Antônio
- Estava pelada? Hélio - Pelada. João explica que
Hélio vê revista de mulher pelada.
Antônio - Joguei bola atrás da igreja. Fiquei com
fome e pedi dinheiro para o João, ele comeu e cuspiu, falou
palavrão porque estava nervoso.
Neste primeiro encontro não trabalhamos com nenhum sonho,
ele funcionou como a nossa apresentação.
25/Agosto/97
Sueli - Fui passear na casa da minha amiga surda que mora perto
da minha casa. Juntas passeamos na rua.
Hélio - Estava sozínho no cemitério e a morte
quis me pegar. Quase conseguiu pegar meu braço, mas eu consegui
escapar.
Para explicar o cemitério fêz sinal de cruz, de caixão
e de enterrar. Para morte o sinal de osso, descrevendo um corpo
só com ossos e desenhou a foice no ar.
Durante o relato do sonho no cemitério a expressão
dos rostos foram se modificando e foi possível observar uma
certa agitação e em função disto optei
por trabalhar este sonho.
A princípio falam que nunca tiveram sonho de medo e que
também não tem medo de nada. Sugerem que talvez tenham
tido este tipo de sonho na infância como se medo fosse um
sentimento de crianças.
Elogio Hélio por tido coragem de contar seu sonho e pergunto
se gostariam de ter um sonho semelhante ao dele. Todos são
unânimes em dizer que não.
Peço que façam desenhos individuais do sonho. Em
todos havia o cemitério e a morte foi substituída
por vampiros. Em um dos desenhos o vampiro mordia Hélio que
gritava ai! ai! ai! , o ai! ai! ai!, provocou crise de risos no
Antônio que não conseguiu explicar o motivo. (a explicação
virá em alguns encontros adiante e se relaciona com sexualidade)
Hélio explica que a morte vem das profundezas, durante a
noite perigosa. No seu desenho está presente o túmulo
de seu pai que morreu quando ele tinha seis anos.
A colocação de que a noite é perigosa trouxe
perigos reais da noite, como ser assaltado e morto por ladrões.
Hélio é o único que já foi ao cemitério.
João conhece bem o cemitério por fora, nunca entrou,
quando pergunto o porque, faz rapidamente o sinal de medo. Todos
riem muito e o João percebe que caiu em contradição
em relação a sua postura inicial de não ter
medo de nada.
15/Setembro/97
Sueli - (Sonhou dormindo no ônibus)
O ônibus estava cheio e um menino me empurrou no ônibus
e começou a conversar. Ele sabia um pouco de sinal. Eu ensinava
sinais para muitas pessoas, conversava a respeito de viajar e passear,
combinava com as pessoas em viajar para praia.
Conhece o menino, o nome dele é Marcelo e é amigo
de uma amiga sua que fala. Sueli tem vontade de ensinar sinais para
poder "paquerar" as pessoas, tem vergonha quando vai "paquerar"
um menino e não consegue se comunicar.
João não liga, para ele não faz diferença
se as outras pessoas saibam sinais. (Antonio faz sinal de masturbação)
Todos estimulam Hélio a responder se para ele é importante
se a menina que ele vai "paquerar" saiba sinais. Percebo
que hoje ele não está bem e tem dificuldade em compreender
a pergunta.
Diz que já "paquerou" no metrô, se descreve
como corajoso, não tem vergonha, escreve para as pessoas
que ouvem e as vezes tenta falar uma palavra. Antonio quando indagado
sinaliza um palavrão, não consegue responder se acha
importante que outras pessoas saibam sinais, tapa as orelhas e abaixa
a cabeça.
Quero saber como se comunica em casa com seus pais, ele diz que
não conversa nada. A respeito de como faz para "paquerar"
as meninas quem responde é Sueli. Informa que ele não
"paquera" e só olha para a bunda das meninas. Antônio
sinaliza outro palavrão, João diz que o significado
é muito feio, todos se agitam muito. O sinal é de
vagina.
Antônio começa a me ensinar sinais, tem muita vontade
de participar, sai da sua posição usual de desinteresse
e vai explicando sinais para bunda, seios, pênis, masturbação
e sexo oral.
Aproveito para saber se alguém já teve um sonho com
relacionamento sexual. Sueli diz que só os homens têm.
Tem inicio uma confusão com todos se comunicando ao mesmo
tempo, falam de tamanho de pênis, Antônio ri muito e
fala que o João tem vergonha de falar destas coisas.
Minha colocação é que estamos falando de coisas
íntimas e que é preciso saber em qual situação
e com quem se pode falar.
A professora fala sobre coisas que devem ficar em segredo e Antônio
faz o sinal de masturbação. Enfatizo que masturbação
é para ser praticada em privacidade.
A partir da discussão sobre a dificuldade ou não
em se comunicar com os ouvintes, chegamos à necessidade que
apresentam de falar a respeito da sexualidade. Eles expõem
o que sabem e ao mesmo tempo checam se suas informações
que possuem estão corretas ou não.
Segundo a professora eles nunca haviam conversado este assunto
na sala de aula.
29/Setembro/97
Como de costume pergunto quem teve um sonho. Hélio teve
e Sueli também. João foi dormir tarde e segundo ele
não deu para sonhar. Antônio intrepreta o fato de João
ter ido dormir tarde como se ele tivese ido dar uma "rapidinha".
Tumulto e risos.
Hélio - Sonhei com o futuro. Fui experimentar a linha do
metrô que ainda não está pronta.
Gosta muito do metrô e sempre utiliza. João acha que
o metrô é importante porque ele vai longe.
Sueli - Eu fiquei preocupada com a filha da minha prima. O carro
quase bateu nela e fugiu.
Conta que quando tinha 7 anos não ouviu a mãe gritar
e foi atropelada por um caminhão. Quase morreu. Ficou muito
tempo no hospital e hoje possui uma cicatriz na perna que acha muito
feia.
Comentando sobre o sonho, fica muito brava com a prima que conversa
e não vê a filha indo para a rua.
Mostra outra cicatriz que tem embaixo do queixo e diz que não
viu nada quando foi suturada pois dormiu (estava anestesiada).
Voltando a falar da perna, relata que doeu muito e que ela gritava.
Saiu uma parte de carne da sua coxa.
Levou muito tempo para se recuperar e perdeu muitas aulas. Fala
com carinho das professoras que foram visitá-la.
Todos parecem compartilhar a dor da amiga. Não sabiam o
que havia acontecido com ela porque na época não estavam
na mesma escola.
Querem saber se o motorista buzinou, quase negando a surdez. Sueli
assume a culpa dizendo que não ouviu o caminhão. Chegam
a conclusão que o motorista tentou frear mas um caminhão
é muito pesado e difícil de parar.
João quer saber quanto tempo levou para sua recuperação.
Sueli não sabe precisar mas descreve todas suas dificuldades
e que ficou um tempo em cadeira de rodas. Tem vergonha de expor
a perna.
Antônio presta muita atenção, tem aflição
de dor e medo de médicos.
Cada um fala um pouco dos machucados que já sofreu.
06/Outubro/97
Sueli- O joão estava de gravata. Eu era casada com ele e
tinha dois filhos, um menino que era o mais velho e uma menina.
Ele não tinha mais espinhas, vestia terno e gravata, trabalhava
em um escritório. Morávamos numa casa bonita e grande.
João quer saber quantos banheiros tem a casa e se no quarto
das crianças tem papel de parede de coelhinho. Sueli informa
que são três banheiros e nada diz sobre o papel de
parede.
Ele diz que no futuro quer ter uma casa e filhos.
Antônio está um pouco impaciente, me dirijo a ele
querendo saber sua opinião sobre o sonho, não quer
falar nada. Tento descobrir quais assuntos são de seu interesse,
sua resposta é sempre nada.
A professora sugere o futebol.
Antônio é o capitão do time, começa
a falar dos amigos que são fracos, ele faz boa parceria com
João que é muito nervoso e às vezes tem vontade
de quebrar a perna de um adversário que é muito bom.
Tento introduzir o sonho novamente, Antônio acha que foi
um sonho legal, casaram e tiveram filhos e que a Sueli gritou, ai!,
ai!, ai! quando "transaram". Acredita que a relação
sexual dói muito para as mulheres. Ri muito e aos poucos
consegue explicar de onde vem esta sua concepção a
respeito de dor na relação sexual. Diz que assiste
filmes eróticos e percebe que as mulheres dizem ai!, ai!,
ai!.
Começa a colocar sua agressividade para fora falando que
o filho que nasceu no sonho era um macaco, referindo-se à
cor da pele da Sueli (os dois são negros). Pego a mão
de ambos e as aproximo mostrando a Antônio que são
da mesma cor.
Em seguida diz que o João deveria arrancar a pele do rosto
e por outra no lugar por causa das espinhas.
Procuro mostrar a Antônio que seus amigos podem ficar magoados
com ele. Peço a oipnião dos outros, tentando saber
como se sentem com esse comportamento.
O único a se manifestar é João. Acha que o
amigo é bobo e que no futuro os filhos de Antonio vão
pensar que o pai é bobo.
Pegando a idéia de futuro Sueli fala sobre o estágio
de pinturas que estão fazendo e que talvez possa vir a trabalhar
com isso.
13/Outubro/97
Neste encontro não houve relato de sonhos. Vai haver uma
viagem para Bertioga e falam sobre as roupas que vão levar.
João brinca e diz vai de cueca ou pelado.
Vão tirar fotos e olhar para a bunda das meninas.
Sueli fala a respeito de uma garota que conversou com João
no sábado passado durante um jogo de futebol na escola, acha
que ela é "puta".
O que determina esta condição é o comprimento
do short que a pessoa usa. Nunca viu a menina antes e também
não sabe nada à seu respeito.
Agora usa short. Antes não pois tinha muita vergonha da
cicatriz na perna (em virtude do acidente que sofreu quando era
pequena).
Na viagem levará biquini mesmo que uma amiga de outra sala
ache melhor que ela use short. Disse para a amiga ficar quieta e
que o problema é dela.
03/Novembro/97
João - Era casado com uma professora da escola, moravamos
em Bertioga e tinhamos dois filhos. Nadava com os filhos que tinham
6 e 7 anos. Eu tinha uns 40 anos.
Acha que é "sujeira" sonhar com professora.
Pergunto para João qual sentimento que tem por ela mas é
impossível obter qualquer tipo de resposta .
Questiono Antônio a respeito desta professora. Quando se
fala em gostar ele leva para o lado de relacionamento sexual. Coloco
que é possível gostar das pessoas em vários
níveis e de modo diferente.
João pergunta ao Antônio se ele tem um sonho para
contar, quem diz sim é o Hélio.
Hélio - Dá um abraço de natal na Maria José,
ela chora. Ambos estavam velhos. Já havia terminado os estudos
e veio visitar a DERDIC.
Está preocupado, não queria trocar de professora
em 98 mas sabe que terá outra.
Todos são unânimes em dizer que é a melhor
professora que já tiveram. O sonho do Hélio trouxe
a tristeza de todos em relação à perda da professora.
Acham que ela é muito dedicada e que os ajuda muito.
Agradeço a todos e lembro a todos que hoje é meu
ultimo dia. Retribuem ao agradecimento e me convidam para a festa
do final do ano.
Tento saber a opinião deles a respeito do trabalho que fizemos
juntos . Todos falam que foi bom. Sueli gostaria que continuássemos
em 1998. João acha que é importante, que com a psicóloga
conversa "coisas" que não conversa com outras pessoas.
Considerações
A possibilidade de um encontro com o inconsciente, mesmo hoje às
portas do ano 2000, ainda provoca desconfiança no homem moderno.Apesar
de palavras tais como "psique, arquétipo, complexos"
fazerem parte do vocabulário quotidiano, os sonhos na grande
maioria das vezes são ignorados.
O inconsciente segundo Jung se expressa através de uma linguagem
arcaica, distante da compreensão do nosso pensamento linear.
A proposta de um trabalho envolvendo sonhos e pessoas surdas com
dificuldade de compreensão e expressão em português
chegou a ser vista com ceticismo pelos que conhecem a complexidade
inerente aos dois campos.
Nos primeiros encontros com os jovens procurei deixar minhas expectativas
de lado e fui sendo surpreendida pela maneira que se deixaram envolver
pelos sonhos e temas que foram mobilizados através do relato
do material onírico.
Gostaria de salientar que na faixa etária em que se encontram
devem fazer um movimento de expansão, vivenciar padrões
coletivos, bem como, precisam inserir-se no mundo adulto, desenvolvendo
uma profissão e estabelecendo relacionamentos afetivos.
Segundo Jung a individuação é um processo
de realização da personalidade, que permite ao ser
humano tornar-se aquilo que ele verdadeiramente é. Os sonhos
na grande maioria das vezes se referem ao processo de um individuo.
Agem como um balizador, informando para a consciência a situação
em que o sonhador se encontra, bem como em algumas vezes qual a
atitude a ser tomada. Trazem também imagens arquetípicas,
ou seja, imagens que pertencem à humanidade como um todo,
sendo assim o conteúdo de um sonho quanto mais arquetípico
ele for, maior será sua capacidade de mobilizar outras pessoas.
Poder falar dos sonhos com o grupo propiciou a abertura para um
mundo ao qual não era dado o menor valor. Nenhum dos participantes
jamais havia contado um sonho para outra pessoa. Somente o integrante
do sexo feminino relatou que em sua casa a mãe e a tia contam
seus sonhos uma para outra. Quanto aos outros, em suas casas, jamais
alguém lhes contou um sonho. Ficam totalmente fora de uma
situação bastante comum que é aquela onde um
integrante da família diz:
- Puxa! Hoje tive um sonho estranho.
Ou
- Hoje sonhei com aquela tia que já morreu.
Por serem surdos não participam de absolutamente nada do
mundo familiar. A comunicação é bastante precária
e os integrantes da família fazem esforços para comunicação
só quando os assuntos são muito objetivos.
A partir do trabalho com os sonhos sentiram que seria possível
tratar das questões que envolvem a sexualidade, inerentes
à idade em que se encontram. A professora informou que eles
nunca haviam se colocado da maneira como fizeram. Puderam se expressar
livremente, expondo concepções, dúvidas e preconceitos.
Todos os integrantes participaram ativamente. Nos encontros, o
elemento feminino bem como um dos rapazes que demonstra estar um
pouco imerso no inconsciente, foram os que mais contribuíram
com sonhos. Começaram a contar seus sonhos um para o outro
também fora do grupo.
Os outros dois jovens demonstraram que tiveram a percepção
do alcance dos sonhos.
Muitas vezes se defenderam preferindo dizer que não sonharam
nada, apesar de um dizer para o outro: " Fala!, você
sonhou, falou para mim que tinha sonhado."
Usaram muito o mecanismo de projeção falando que
o outro tinha sonhos proibidos , o que significava que eram sonhos
eróticos.
Em relação a surdez também foi o elemento
feminino quem mais se manifestou, trazendo nos sonhos o desejo de
poder se comunicar e o quanto isto ampliaria o seu relacionamento
com as pessoas.
Levando em conta a relação da sonhadora com o inconsciente,
no sonho em que ela começa a ensinar sinais para um jovem,
podemos falar da necessidade, bem como da possibilidade de um estabelecimento
de contato com seu aspecto masculino inconsciente que Jung chamou
de Animus e que no inconsciente da mulher é responsável
pela ordenação do material inconsciente.
Outro sonho promissor é o da viagem para novas estações
do metrô. O sonhador é levado por baixo da terra, através
do subterrâneo, representando o inconsciente em um caminho
novo, com novas saídas. Ainda é um caminho coletivo
mas estamos falando de um jovem que precisa inserir-se no mundo
adulto e para isto necessita desenvolver padrões sociais
de comportamento.
Mesmo acreditando na possibilidade de transformação
que o trabalho com os sonhos pode promover, recebo com cuidado a
observação da professora e da chefe do programa de
ensino dizendo que houve uma mudança significativa na atitude
dos alunos. Que têm se mostrado mais maduros em relação
a aprendizagem e que tornaram-se mais responsáveis.
A fim de dar continuidade ao levantamento de sonhos, bem como a
verificação da possibilidade de uma modificação
de atitude que o trabalho com o material onírico pode propiciar,
atualmente está em andamento um outro grupo na mesma escola
com integrantes de outra sala.
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