A Anima 30 Anos Pós-Jung
Gustavo Barcellos
Em 1970, James Hillman escreveu um artigo para a revista Spring
com o seguinte título: "Por que Psicologia Arquetípica?"
Era a primeira vez que o termo era utilizado como tal. Com esse
artigo, Hillman abria uma possibilidade diferente de pensar a psicologia
junguiana. Logo de início, visava se distanciar do termo
mais comumente utilizado de "analítica", exatamente
por suas implicações a princípio exclusivamente
ligadas à prática da psicoterapia.
Quais são as conseqüências reais desse afastamento
do analítico em busca do arquetípico? Qual é
a marca essencial da contribuição de Hillman e de
seus companheiros para a psicologia junguiana e, mais, qual a sua
importância?
O livro Psicologia Arquetípica: Um Breve Relato, que contém
uma monografia escrita por Hillman em 1979 para inclusão
no Volume V da Enciclopedia del Novecento, do Istituto dell'Enciclopedia
Italiana, publicada em 1981, aborda essas questões da forma
mais objetiva possível. O leitor interessado numa compreensão
mais sistemática da psicologia arquetípica e, mais
especificamente, da obra de Hillman, encontra ali uma espécie
de guia capaz de orientá-lo na leitura dessa obra. Neste
trabalho encontra-se o traçado intelectual de cada um dos
conceitos fundamentais que Hillman, em outros ensaios e livros,
ocupar-se-á de ampliar e saborear mais profundamente.
James Hillman aparece de fato como a figura central dentro dessa
perspectiva de pensamento que, é preciso deixar claro, pretende-se
menos como uma "escola" em si, e mais como um aprofundamento
e um avanço das idéias originadas principalmente no
trabalho do psicólogo suíço Carl Gustav Jung.
Por isso é difícil falar em psicologia arquetípica
como uma linha ou uma escola de psicologia ou mesmo de psicoterapia.
Simplesmente, não faz sentido. Procuramos dizer que a psicologia
arquetípica é uma maneira de se fazer psicologia junguiana.
Hillman, seguindo uma tradição essencialmente retomada
por Jung, fala de alma, de um sentido de alma. Acima de tudo, alma
aqui é entendida como "uma perspectiva, ao contrário
de uma substância, um ponto de vista sobre as coisas, mais
do que uma coisa em si" (Hillman, 1991, p. 40). Seus textos
e os de seus amigos falam da alma do mundo, do amor, do puer, do
senex, da guerra, da psicoterapia, da imaginação,
do estado da cultura, dos sonhos, da masturbação,
da arquitetura, examinam os detalhes das figuras míticas
em busca de uma psicopatologia descrita numa linguagem mais rica
e sensual. Falam, portanto, de muita coisa. Falam, acima de tudo,
de anima. Falam de anima de uma maneira libertária, que identifica
anima imediatamente com alma, com psique. Retomam, assim, o sentido,
presente em Jung, de desfazer a ilusão subjetivizante de
que a anima está em nós em vez de nós estarmos
na anima. Hillman diz que "porque tomamos a anima personalisticamente,
ou porque ela engana o ego dessa forma, perdemos o significado mais
amplo de anima" (Hillman, 1990, p. 5). Esse significado mais
amplo constela a alma como uma perspectiva genuinamente psicológica:
esse in anima, nos diz Jung, ser humano é ser na alma desde
o começo.
Anima 30 anos depois da morte de Jung, essa anima de 30 anos, essa
"balsaquiana", talvez esteja se tornando assim mais independente.
Com Hillman talvez ela possa agora livrar-se de ser pensada sempre
em termos de opostos, sempre presa nas sizígias, seja com
animus, com sombra, com Self. Podemos ver que anima, alma, está
por tudo e em tudo, não só na interioridade feminina
do homem. Está no homem e na mulher. Anima pertence a todas
as coisas, exatamente como a possibilidade de interioridade de todas
as coisas. Anima refere-se, numa só palavra, a interioridade.
Para essa perspectiva, a área mais fundamental do trabalho
de Jung é naturalmente a teoria arquetípica. É
para lá que voltamos a nossa atenção. Estamos
nos referindo aqui ao trabalho de Jung na maturidade, onde o conceito
de arquétipo ganha a profundidade e o alcance que ele apontava
desde o início. Como comenta o próprio Hillman, há
um aprofundamento constante no trabalho de Jung: do pessoal para
o universal, da consciência para o inconsciente, do particular
para o coletivo, enfim, dos tipos para os arque-tipos.
Diferentemente de Freud, que regularmente revisava suas idéias
em busca de uma teoria sistemática, Jung não revisava
nada. Jung não tem, nesse sentido, uma mente crítica,
aristotélica. Ele construía em cima do que já
tinha, num modo peculiar de aprofundamento (James Hillman, citado
em The Wisdom of the Dream, Stephen Segaller e Merril Berger, Shambala,
Boston, 1989, p. 43). É também nesse espírito
que me parece inscrever-se o trabalho da psicologia arquetípica.
A formulação do conceito de arquétipo em psicologia
é encarada como a contribuição mais radical
e importante de Jung para a história do pensamento psicológico
no Ocidente. O conceito de arquétipo aqui parece fundamental
não só porque reflete a profundidade do trabalho de
Jung, mas também porque leva a reflexão psicológica
para além da preocupação clínica e dos
modelos científicos: "arquetípico pertence a
toda a cultura, a todas as formas de atividade humana. (...) Assim,
os vínculos primários da psicologia arquetípica
são mais com a cultura e a imaginação do que
com a psicologia médica e empírica" (Hillman,
1991, p. 21).
Hillman nos faz enxergar os arquétipos como as estruturas
básicas da imaginação, e nos diz que a natureza
fundamental dos arquétipos só é acessível
à imaginação e apresenta-se como imagem.
Se o conceito básico da psicologia arquetípica é
então o arquétipo, sua área de atuação
focaliza-se na imagem. Encontramos a psicologia arquetípica
voltada para o trabalho com a imaginação, voltada
para ressuscitar nosso interesse pela capacidade espontânea
da psique de criar imagens. Hillman cita Jung quando diz que "imagem
é psique" (Jung, CW 13, §75), radicalizando assim
a idéia de que a realidade psíquica é constituída
de imagens.
Dessa forma, "ficar com a imagem" transformou-se numa
regra básica no método da psicologia arquetípica.
"Ficar com a imagem" irá influenciar todo o procedimento
terapêutico, especialmente no que toca a questão da
interpretação. As imagens psíquicas são
encaradas com fenômenos naturais, são espontâneas,
quer seja no indivíduo, quer seja na cultura, e necessitam,
na verdade, ser experimentadas, cuidadas, acariciadas, entretidas,
respondidas. As imagens necessitam de relacionamento, não
de explicação. No momento em que interpretamos, transformamos
o que era essencialmente natural em conceito, em linguagem conceitual,
afastando-nos do fenômeno.
Uma imagem é sempre mais abrangente, mais complexa, que
um conceito.
Nessa perspectiva, a imagem, em sonhos, nas fantasias, na poética,
nos mitos e na sua maneira de revelar os padrões arquetípicos,
é sempre o primeiro dado psicológico: as imagens são
o meio através do qual toda a experiência se torna
possível. Elas têm uma qualidade autônoma, independente,
e indicam complexidade: em toda imagem há uma múltipla
relação de significados, de disposições,
de proposições presentes simultaneamente, Nossa dificuldade
em compreendê-las, por exemplo, nos sonhos, vem de nosso vício
de linearidade. Nossa incapacidade de experimentar e vivenciar a
simultaneidade de significados de cada imagem vem da necessidade
de transformá-las em história, em temporalidade: uma
coisa por vez, uma coisa depois da outra. Aqui, como sempre, o mito
do desenvolvimento: nossa abordagem fortemente evolutiva dos eventos
nos faz ver primeiro o desenvolvimento. Mas no reino do imaginal,
todos os processos que pertencem a uma imagem são inerentes
a ela e estão presentes ao mesmo tempo, todo o tempo.
Nessa ênfase tão radical com relação
à imagem na vida psíquica, cabe-nos então buscar
por uma imagem que nos facilite penetrar mais diretamente, e dentro
de sua própria retórica, na perspectiva da psicologia
arquetípica. A imagem-chave que assim nos aparece é
profundidade. Desde Freud, Adler, e passando naturalmente por Jung
e seus colaboradores, falamos de uma psicologia profunda. Com Hillman,
percebemos a extensão da metáfora. Uma psicologia
profunda é aquela que avança para o inconsciente,
e na metáfora o inconsciente é aquele terreno de experiências
que está mais abaixo da consciência, subposto, implícito.
"O campo da psicologia profunda tem sido sempre direcionado
para baixo, quer seja na direção de memórias
enterradas na infância, quer em direção a mitologemas
arcaicos" (Hillman, 1991, p. 57). Podemos naturalmente aqui
lembrar o Fragmento 45 de Heráclito, que põe na base
dessas noções a metáfora da pronfundeza como
a mais adequada para refletir a específica dimensão
da alma: a dimensão da alma é a profundidade (não
extensão, temporalidade, sucessão, etc.).
A metáfora do profundo leva a psicologia arquetípica
a uma direção sempre de aprofundamento vertical e
obriga, nesse sentido, a concentrar-se na depressão como
o paradigma da psicopatologia, tal qual a histeria para Freud, ou
a esquizofrenia para Jung. A depressão leva o sujeito necessariamente
para baixo, para um aprofundamento em si mesmo. Diminui o ritmo,
desacelera o intelecto, aproxima o horizonte. Talvez nada hoje em
dia consiga para nós o que consegue a depressão, e
por isso sua presença tão marcante: esforços
da farmacologia à parte, na depressão somos lançados
irremediavelmente no vale da alma.
A preocupação com profundidade e depressão
também permite à psicologia arquetípica uma
crítica à cultura, na medida em que "uma sociedade
que não permite a seus indivíduos deprimir-se não
pode encontrar sua profundidade e deve ficar permanentemente inflada
numa perturbação maníaca disfarçada
de 'crescimento'" (Hillman, 1991, p. 73).
Tudo isso afasta a psicologia arquetípica das traduções
interpretativas horizontalizantes de sintomas, sonhos, fantasias,
ou seja, imagens - e constela a própria análise como
descida: um procedimento que deseja aprofundar-se, que de fato começa
por baixo, procurando os sonhos, o inconsciente, aquilo que está
naturalmente abaixo da vida cotidiana.
Na psicologia arquetípica, a direção vertical
se confunde, além do mais, com a direção para
o sul. Aqui, diferentemente de Jung, onde se convencionou o dilema
de Leste/Oeste, Norte e Sul tornam-se geografias simbólicas,
ao mesmo tempo que culturais e étnicas. A Viena de Freud
ou a Zurique de Jung são lugares da fantasia e "situam
as idéias numa imagem geográfica" (Hillman, 1991,
p. 59). Assim, a psicologia arquetípica, em suas bases, afasta-se
da língua alemã e da visão de mundo judeu-protestante
do "norte" europeu ariano, apolônico, positivista,
racionalista, cientificista em direção ao "sul"
mediterrâneo, à Grécia da mitologia clássica,
onde os padrões arquetípicos são elaborados
em histórias, em mitos, e à Itália da Renascença
com Ficino, e depois com Vico em Nápoles no século
XVIII, com suas imagens e seu humanismo sensual. Aqui, segundo Hillman,
"a cultura da imaginação e a maneira de viver
carregavam aquilo que seria formulado ao norte como 'psicologia'"
(Hillman, 1991, p. 59).
Ao fazê-lo, a psicologia estará certamente deslocando
a morada da alma do cérebro para o coração.
A direção vertical, a metáfora do profundo,
acima de tudo leva a psicologia arquetípica e a contribuição
essencial de Hillman a mostrar finalmente sua verdadeira marca,
sua verdadeira importância: novamente, enxergar interioridade
como uma possibilidade em todas as coisas, e a buscar em cada evento
algo mais profundo. "O 'interior' refere-se àquela atitude
dada pela anima que percebe a vida psíquica dentro da vida
natural. A própria vida natural torna-se o vaso no momento
em que reconhecemos que ela possui um significado interior, no momento
em que vemos que ela também sustenta e carrega psique. A
anima faz vasos em todos os lugares, em qualquer lugar, ao ir para
dentro" (Hillman, 1990, p. 95).
Nenhuma outra perspectiva dentro da psicologia analítica
parece-nos demonstrar de modo tão integral e coerente como
é possível e enriquecedor levar as categorias do pensamento
junguiano para a análise e a compreensão também
das coisas do mundo, também para aquilo que está do
lado de fora dos consultórios de psicoterapia. Hillman e
seus companheiros insistem em escrever e refletir sobre a alma do
mundo, recuperando em nossos dias a antiga noção de
anima mundi, uma idéia tão complexa, mostrando a alma
como uma possibilidade de todas as coisas. O dinheiro, a organização
urbana, o transporte público, os tetos de nossas edificações,
o caminhar, os esportes, a AIDS, e a própria arquitetura
foram e são temas de artigos e livros.
Portanto, alma é a metáfora-chave, ou raíz
metafórica, desta abordagem, e indica na verdade aquilo de
que se está falando. O que está por baixo, na direção
vertical, na profundeza, é a alma. Alma refere-se à
profundidade, tem a ver com profundeza. Em Hillman, isto quer dizer
que a alma refere-se a uma perspectiva reflexiva entre nós
e os eventos. "A alma deve ser a metáfora primária
da psicologia" (Hillman, 1991, p. 40), nos diz ele, uma metáfora
já etimologicamente determinada: psicologia, logos da psyché,
significa o discurso ou a narrativa ou a fala verdadeira da alma.
A alma, no entanto, deve ser imaginada, não definida. É
uma metáfora, e ao mesmo tempo um campo de experiências.
Essa metáfora, além de tudo, toca a análise
diretamente, que, na perspectiva de uma psicologia arquetípica,
não intenciona a "cura" da alma (pelo menos não
no sentido médico), mas, em vez, facilitar aquilo que Hillman
define como cultivo da alma (soul-making): de novo, o aprofundamento
dos eventos em experiências. A opus da psicologia é
necessariamente a alma.
Podemos nos aproximar um pouco mais do uso que a psicologia arquetípica
faz da palavra alma contrastando-a, como de fato o faz em diversos
trabalhos o próprio Hillman, com seu oposto, espírito.
Este contraste serve, acima de tudo, para clarificar nosso caminho,
como psicólogos, de volta à alma. Se a alma é
aquilo que está lá no fundo, nas profundezas, o espírito
está nas alturas.
A alma é múltipla, pessoal, feminina, metafórica;
o espírito é unitário, concentrado, masculino,
racional. O contraste serve para nos mostrar que a análise
não é uma ocupação espiritual. "Há
uma diferença entre Yoga, meditação transcendental,
contemplação religiosa e recolhimento, e até
mesmo Zen, por um lado, e a psicoterapia, por outro" (Hillman,
1975, p. 67). A alma nos remete aos sonhos e às imagens;
o espírito nos conduz à iluminação e
à transcendência. Na famosa metáfora de Hillman,
o espírito está nos picos, a alma está nos
vales.
Para terminar, uma nota sobre psicopatologia. A alma volta sempre
às suas mesmas feridas, ela insiste sempre nas mesmas figuras
e emoções, vemos os memos temas nos sonhos por muitos
e muitos anos. Desse ângulo, a psicopatologia aponta para
a circularidade da alma, outra noção muito antiga.
A alma repete-se infinitamente, e na repetição está
uma tentativa de aprofundamento. A alma volta constantemente às
suas feridas para extrair delas novos significados; volta em busca
de uma experiência renovada. Ficamos familiarizados com nossos
complexos e nosso sofrimento. O ego, identificado com o arquétipo
do herói, chama a repetição de neurose. Mas
na repetição, na circularidade, o ego é forçado
a conscientizar-se de que há uma outra força governando
a coisa toda. Na repetição o ego é forçado
a servir à psique. Há um aspecto ritual aqui, uma
humilhação. A circularidade, por fim, nos personaliza.
Do ponto de vista da alma, a repetição é uma
maneira de nos tornarmos aquilo que somos.
São Paulo
Junho 1991
Referências Bibliográficas
HILLMAN, James (1975). Re-Visioning Psychology, Nova York:Harper
Colophon Books.
(1990) Anima: Anatomia de uma Noção Personificada,
São Paulo:Editora Cultrix.
(1991) Psicologia Arquetípica: Um Breve Relato, São
Paulo:Editora Cultrix.
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