Um Adágio em Küsnacht
Rubens Bragarnich
Há um conhecido provérbio coligido por Desiderius Erasmus, também
chamado Erasmo de Rotterdam, um clérigo agostiniano holandês, um
dos mais notáveis e influentes humanistas da Renascença e que teve
papel importante na revitalização do Cristianismo bem como na revalorização
dos textos gregos e latinos clássicos, que assim se enunciava:
"Vocatus atque non vocatus Deus aderit" traduzido como: "Evocado
ou não, Deus está presente".
Este pensamento foi extraído por Jung do Collectanea Adagiorum, uma
coleção de provérbios e sentenças de autores antigos gregos e latinos,
obra de juventude de Erasmo, publicada exatamente em 1500 e que teve
uma 2º edição ampliada em 1508.
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Este provérbio deve encerrar grande importância e significado
para Jung pois foi esculpido, em sua forma latina, no frontispício
de sua casa em Küsnacht, sobre a porta de entrada, como também
irá se eternizar na lápide, junto a outras duas inscrições em
sua tumba no cemitério protestante da Zurique. As duas primeiras
inscrições foram extraídas da 1º epístola de S.Paulo aos Coríntios
(1 COR 15:47), também em sua forma latina; a 1º verticalmente
à esquerda "Secundos homo de caelo caelestis" e a 2º, no lado
oposto, "Primus homo de terra terrenus". O provérbio sobre a
presença de Deus está dividido em duas partes, numa faixa horizontal
superior e outra inferior
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Fig.1 - Lápide do túmulo de C.G. Jung
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Jung sempre teve uma relação especial com pedra e inscrições; há em
sua casa de Bollingen, várias sentenças de Heráclito, Arnaud de Villeneuve,
um alquimista do século XIII, da Odisséia de Homero e outras mais que
cunhou.
Fig.2 Mapa da localização de Delfos
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O adágio de Küsnacht tem sua origem em Delfos,
depois Castri, na Esparta grega, mais exatamente no templo e
oráculo dedicado a Apolo, o mais famoso de todos, que sobreviveu
até 390 da nossa era, já sob a influencia romana. O oráculo,
localizado ao sul do Monte Parnasso, era tido como ômfalo (centro
do mundo) e próximo da fonte Cristalia.
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Ali era dedicado ao deus da luz, poesia, música e profecias. Para lá
acorriam gente de toda a Grécia para saber do futuro para questões bélicas,
políticas, amorosas, da vida privada, da instalação de colônias, casamentos,
etc. Pitia, uma virgem escolhida como sacerdotisa, ficava sentada num
trípode, um engenho de três pés, entrava em transe pela aspiração de
vapores e comia folhas especialmente preparadas para o ritual. Sua única
qualificação era ouvir a questão do sacerdote, falar e repetir o que
o deus lhe ditava. Assim, o espírito do deus se revelava e a resposta
era declamada em versos para que os sacerdotes respondessem ao consulente.

Fig.3 - Visão do Templo de Apolo
Pois bem, no lado esquerdo do corredor que dá acesso a minha sala de
trabalho, há uma foto emoldurada com esse adágio em inglês, obtida de
inscrição também em pedra trazida de Londres, mais exatamente da Abadia
de Westminster. A foto, por falta de luminosidade adequada, por sorte,
ficou escura, brumosa nos cantos e mais clara no centro, trazendo um
ar místico e espiritual. O que este gesto poderia significar?
Tal qual um mezuzah hebraico, que se instala no batente direito da
porta da casa de um judeu e que contém uma oração abençoando e protegendo
aquele lar, a mensagem de Erasmo teria, para mim, mais ou menos a mesma
função protetora de um mezuzah.
E para Jung, porque fez esculpir o adágio na porta de Küsnacht? Seria
a locus do desvendamento dos mistérios do mundo do inconsciente que
naquele recinto se revelariam?
Poderíamos pensar neste provérbio simbolicamente e assim tentar capturar-lhe
outros significados no âmbito do trabalho clínico.
O segundo significado que se pode extrair do pensamento de Erasmo é
que independente da nossa consciência profissional, extremamente matizada
pelo cientificismo e raciona lismo que nos configurou, pois somos frutos
do espírito de nossa época, é que há algo muito além do ego, que ali
está presente, involuntariamente. Esse algo é tudo aquilo que não sabemos
ou conhecemos, que nos escapa, que não enxergamos, que não percebemos,
literalmente tudo aquilo que nos é inconsciente.
Por tanto, ele pode ser entendido como enunciando a existência do
Inconsciente;
3º. Significa ainda que no setting terapêutico operam forças energéticas,
além daquelas que conscientemente aciona -mos na nossa atividade clínica
com o nosso método e os nossos procedimentos técnicos. Essas forças
operam, participam e interagem com aquelas que supomos direcionar, manejar
e lidar. Embora não possamos saber exatamente como essas interações
se estruturam, sabemos ao menos que elas se expressam em imagens poderosamente
carregadas de tonalidades afetivo-emocionais, em complexos e nos símbolos,
o que constitui o fator energético em si mesmo.
4º. Significa, pelo mesmo caminho, mas em direção oposta , que tendo
uma regência divina, superior, o nosso labor analítico se restringe
aos limites próprios de modéstia e humildade; pois ainda que obtenhamos
sucesso em nossos esforços junto aos nossos pacientes, eles se dão sempre
em estreita observância a um fator transcendental, abrangente, poderoso,
algo acima de nós próprios.
Isso também já foi muitas vezes expresso por outro provérbio do mundo
médico: "Eu trato e Deus cura", verdadeiro antídoto que nos afasta daquilo
que foi descrito na mitologia grega como a hybris, qual seja, a danosa
identificação com o poder de cura, que nos levaria ao estado de inflação
arrogante e vaidosa, como se fossemos semelhante a Deus ou aos deuses.
5º. Significa ainda, finalmente, também na acepção mais literal e espiritual,
a presença de um determinante incognoscível divino, onipresente e onisciente,
o qual nós chamamos, transliteradamente de Self; colocado à entrada
do local onde trabalhamos, nós o evocamos e o denominamos Self terapêutico,
por atribuir-lhe a função maior de cura e desenvolvimento psicológico.
Neste contexto, a personalidade integral do terapeuta é tão somente
instrumento e ferramenta a serviço do Self. Todos sabemos da difícil
arte de operarmos num campo psicológico árduo, parcialmente consciente
e parcialmente inconsciente, funcionando dentro do tênue fio entre o
que é consagrado pela ciência formal quanto aquilo que não é, quando
operamos quase que no escuro, na escuta pari passu com as narrativas
e silêncios de nossos pacientes, na intuição e nas águas tempestuosas
dos caminhos e descaminhos, tendo às vezes tão somente a fé de que nos
fala Jung no capitulo "A prática da Psicoterapia".
Nos diz ele que a fé do terapeuta é fundamental para o bom andamento
do trabalho clínico; sem ela, especialmente quando nos encontramos diante
de dificuldades extremas, perdemos o vigor e a capacidade de sermos
bons instrumentos. A compreensão desta sujeição ao Self pode ser a única
crença que nos resta nestes momentos de vida profissional, quando tudo
parece árido e sem solução. Ai o Self produz os seus símbolos que emergem
para o espaço terapêutico, para o paciente e/ou para o analista e nova
mente se abre um caminho e a solução para um conflito aparentemente
intransponível.
É graças a essa presença divina, que chamamos Self, e que pode com
certeza ser mais um dos nomes de Deus, que o processo se desenvolve.
Tornarmo-nos conscientes desta presença e o evocarmos voluntariamente
a operar construtivamente no setting terapêutico é dissolvermos a dissociação
histórica entre a Ciência e a Religião, e tê-lo como aliado poderoso.
Bibliografia
Le musée imaginaire de Carl Gustav Jung, Christian Gaillard, Editions
Stock, 1998
-Colletanea Adagiorum, Desiderius Erasmus, 1500/1508
-Catholic Encyclopedia, Vol.5, 1909, Robert Appleton Company, Online
Edition, 1999, Kevin Knight
-Compton's Interative Encyclopedia, 1996
-O círculo hermético, Miguel Serrano
-Foto da tumba de Jung, www.find-a-grave.com
-Memórias, Sonhos e Reflexões, C.G.Jung, A Torre, 5º ed.
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